quinta-feira, 6 de novembro de 2014
QUE DOCE VIDA...
Que doce vida a da infância, onde sorrisos não custam nada, sim, onde sorrimos das coisas mais tolas. Onde tudo é perfeito, os dias são tão bons, tão serenos. E se algo falta, compensa-se com um sono bem dormido.
Onde na cama do papai não há tempestade que amedronte, nem trovão que tire nossa paz.
Ah, vida boa a vida de criança, sujando-se correndo, escondendo-se, jogando bola de meia no campo de torrão seco; fazendo zueira,de tudo e todos.
Vida feliz sem artifícios, sem competitividade,sem recalques, sem preocupações. vida cheia de esperteza, de marotices, peripécias, malandragem, sonhos, peraltices.
Vida onde o céu parece tão perto, tão junto, no sorriso da mãe, no silêncio do pai em volta da mesa pequena, mas cheia e cheirosa da humilde refeição.
Vida de alegres gritos, de fuxicos tolos, de beliscões, vida de sussurros e risos contidos, criticando um careca, um velho,escondendo o rosto entre as mãos, vida de banhos de chuva, de família unida, ou de orfandade, vida marota, garota, vida malvada, mas tão, tão verdadeira, de céu nublado, de noites frias, de dias quentes, de inverno, de outubros azuis, vida de lata dágua na cabeça,de lavar no rio, hum, tantas, tantas memórias....
Ah, vida por que passas tão pronto ,levando contigo nossos dentes de leite que não doem ao serem puxados na linha?
Nossas bonecas de pano, nossos carrinhos de lata, nossos boizinhos de maxixe? junto a tudo levaste eternamente nossa inocência, nossa casinha na árvore, nossas moitas de capim cheiroso, e os banhos bons que mamãe nos dava e depois nos enrolava nos carregando até a cama....
Ah, se por um momento, num descuido , um milagre brotasse, e tua porta abrisse, e eu pudesse outra vez entrar no ventre da minha idade áurea, riria, e entraria só para brincar uma vez que fosse, e caminhar descalço e despreocupado do meu vil labor, sorriria doce e sorriria tanto que despertaria a própria eternidade, que por certo é eternamente jovem, e juntas sentaríamos na beira do penhasco, eu lhe diria que sinto saudades dos meus primeiros anos onde fui tão contente, ela me diria, vai chegar o dia em que a alegria vai se reprisar, pois na eternidade tudo se renova, a dor não existe, tudo é lindo e belo.
Só por um momento junto a ela, rio e canto, corro descalço, sinto o vento despentear meus cabelos, sujo o pé na terra vermelha e levanto pipas ao ar, atiro em passarinhos, beijo escondido, choro pra não estudar.
Mas é hora de voltar pra realidade, deixar no passado os arroubos da infância boa que tive e firmar o pé no chão.
Ah, a meninice deveria durar toda a vida, mas é preciso crescer,é preciso avançar, mas se pudermos abraçar o tempo, aprofundar raízes e conservar o coração sem ódio, pode ser que os anos durem, pode ser que a infância nos acompanhe, para guardarmos doces memórias, até a velhice chegar. ( Judite Araujo). Para minha amada filha Bênia Izabel, nos seus dezesseis anos.
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