terça-feira, 4 de novembro de 2014


AS DUAS PALAVRAS

A jovem professora estava diante da classe de crianças camponesas, feliz por ter escolhido trabalhar numa comunidade de pessoas tão humildes que davam valor às coisas simples da vida.
Planejou cuidadosamente a aula daquele dia tão especial: Dia dos pais.
Cada criança deveria ir à rústica escola, acompanhado do seu respectivo pai. Ela fizera bolo, bebida quente e outras guloseimas comuns da vida rural daquelas crianças.
Preparou as maças carameladas, com as quais planejava dar a aula naquela manhã ensolarada. Em cada maça escreveu uma palavra referente a uma virtude moral, útil para a vida, pois queria usar os próprios pais para ensinarem uma lição aos filhos que os direcionasse a um futuro de equilíbrio. Colocara as maças cobertas com um pano, de forma que a palavra só era descoberta depois que o pai a pegava da bandeija.
Palavras como : confiança, felicidade, exemplo, perdão, prudência, Amor, felicidade, fidelidade, entre outras.
Cada um escolhia sua maça e falava diante da turma uma lição sobre a palavra que vinha na maça.
A jovem professora fizera uma mçã a mais para que o último pai, fosse quem fosse tivesse que escolher entre as duas maças finais na bandeja, então descoberta, qual virtude lhe era mais útil.
Notou que o último a se aproximar era um senhor de cabelos brancos, apoiado em uma bengala, em uma das mãos, enquanto na outra segurava a mão de um dos meninos. Ao chegar à frente da mesa, contemplou demoradamente as duas últimas maçãs que sobraram solitárias , na bandeija descoberta.
Eram exatamente as palavras AMOR e FIDELIDADE. Ele disse: Meu filho não pode vir hoje, pois tinha uma viagem e não podia faltar ao compromisso, por isso, vim acompanhar meu bisneto.
Todos já sabiam qual palavra aquele senhor escolheria. Mas contrariando as expectativas, o idoso senhor escolheu a maça com a palavra FIDELIDADE. E explicou: eu precisei lá no passado, desta palavra, quando os arroubos da minha juventude me arrastaram a uma aventura extra conjugal, mas eu confiava apenas no amor que eu nutria pela vida e por minha jovem e bela esposa, e não busquei construir nossa vida a dois baseado na FIDELIDADE, minha esposa adoeceu por causa da minha atitude, foi murchando cada dia como uma flor do campo, ela estava grávida do nosso segundo filho, e no dia do nascimento dele, ela se entregou, não lutou pela vida, apenas olhou o bebê, beijou-lhe a cabeça e fechou os olhos para sempre.
E nesses quarenta anos desde esse fatídico dia, não há um momento em que não pense na diferença dessas duas palavras tão lindas.
AMOR, sobrevive sendo grande ou pequeno; pobre ou rico; sensato ou infantil; forte ou fraco; numa choupana ou num palácio; pois o amor é grandioso em si mesmo, tudo sofre e suporta, tudo crer e espera. Mas para a FIDELIDADE não há meio termo, não há metade, ou é ou não é. O amor é livre para crescer ou diminuir, a FIDELIDADE só tem uma medida exata, inteira, total.
Portanto, entre essas duas escolhas, a FIDELIDADE salvará o amor de cair no erro da degradação, da indiguinidade e da morte dos valores.
Se eu tivesse valorizado essa palavra, hoje estaria afagando os cabelos brancos de minha esposa, contemplando suas rugas, vendo-a envelhecer ao meu lado, e desfrutando de sua companhia. Lutei muito na vida e venci meus medos,aprendi as mais importantes lições da forma mais difícil, mas jamais recuperei a felicidade que deixei morrer por causa de uma aventura.
(Judite Araujo).

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