quinta-feira, 6 de novembro de 2014
MINHA PRIMEIRA ORAÇÃO RESPONDIDA.
Eu tinha seis anos então, nada superava para mim, o fato de estar junto aos meus pais, exceto, ir passear na casa da minha vó preferida, a mãe da minha mãe, a quem todos sempre chamaram de "cocota", inclusive eu. Mas mesmo a alegria da casa da vovó, começava a diminuir, caso meus pais demorassem a me buscar.
Foi nas férias do final do ano, minha vó me levou parapassar vinte dias na sua casa....foi maravilhoso nos primeiros dias, eu brincava, subia num enorme cajueiro na frente da casa, brincava com uma vaca holandesa, que viva no quintal, até mamava nas suas tetas, ela era muito mansa.
O inverno naquele ano foi o mais forte e demorado que já vi, tenho viva a lembrança dos trovões e raios a noite toda...
Por essa razão, as estradas foram cortadas, e ninguém podia passar, e minhas férias de vinte dias, arrastaram-se por três longos, intermináveis meses.
Fui aos poucos perdendo a vontade de correr, brincar e até comer. Tinha um medo pavoroso de não ver mais minha mãe. Apesar de amar com loucura a meu pai, nessa época, sentia por demais a falta da minha mãe.
Quando ia para a casa da minha vó, gostava de dormir com ela, inventava mil coisas, para deitar com ela, é que ela tinha um cheirinho tão bom, principalmente seu cabelo longo e negro, cheirava oriza, uma folha que ela colocava, eu tinha paixão por esse perfume.....
Mas mesmo esse prazer foi sumindo, quando o tempo foi passando eu não via o rosto iluminado de minha mãe.
Chorava as noites.... até quase o dia raiar, depois dormia exausta e acordava com os olhinhos inchados.....
Vovó sabia, mesmo sem palavra alguma, ela sabia..... tentava me agradar de todo jeito, mas não estava funcionando.....
Certa noite, de muita chuva, cocota, escutava o rádio, muito ruim, num programa da rádio transmundial, no final ela ajoelhou e orou e deitou-se.... algo naquela oração mexeu comigo, não lembro uma palavra sequer, mas ali deitada na minha rede de fio, embalada pela chuva e pelo medo. fiz minha primeira oração. Nunca havia despertado para o fato de Deus escutar as crianças, mesmo orando sempre com meus pais , me parecia que só os adultos eram ouvidos.
Fechei os olhos, e orei balbuciando e em pranto silencioso, para minha vó não ouvir.... Deus do céu que chove, eu estou com saudade da minha mãe.... não deixa eu morrer sem ela vir me buscar, trás minha mãe Deus, trás minha mãe..... dormir chorando......
No outro dia cedo despertei, a chuva havia parado, e o galo da casa cantava sem parar, o sol brilhava forte, mas o caminho estreito de areia branca, estava inundado, por causa da noite de chuva.....
não atentei para o café, sair andando pelo caminho a esmo, olhando para meus pés, andei muitos metros.....não desejava voltar..... ia , e ia caminhando, pensando em quando iria para casa, como estaria papai...minha irmanzinha Madai, e o Rubem.....
E se eu não os visse nunca mais?
De repente, olhei para o horizonte, a estrada era reta e sumia de vista.....muito, muito ao longe, vi uma figura vindo.... parei e me dediquei a olhar, apenas olhar....
a pessoa continuava vindo..... aquele jeito de caminhar.... seria ela? Meu Deus, o coração deu um grito, queria saltar pela boca.....sim aquela pessoa , lá ao longe na estrada de chão, era a minha mãe.
Não sabia se gritava, chorava, se esperava ou se corria ao encontro......ainda estava longe, mas era ela, tinha que ser ela....Deus trouxera ela.... quando ela me reconheceu...apressou o passo, ai não duvidei, corri com toda força, que pude.... e me joguei nos braços estendidos......Ozete, Ozete....Ozete.....assim chamávamos nossa mãe.... Não posso dizer que tenha palavras hoje depois de quarenta anos, para expressar a alegria que senti ali naquela hora...... O rosto lindo, suado e amado de minha mãe..... seu cheiro, sua bravura em andar desde as três da manhã, sozinha...de onde o ônibus lhe deixou, ate a casa da minha vó...... ela disse algo que até hoje lembro....vim te buscar filha, isso era tudo que eu queria, tudo o que precisava...... Tudo que Deus fizera por uma menina magrela de seis anos, chorosa numa noite de chuva....
A poucos dias fiz quarenta e seis anos.... dobrei os joelhos para orar só agradecendo: disse a Deus , Senhor, obrigado por aquele dia a quarenta anos atrás, quando respondeste minha primeira oração..... NÃO POSSO TE AGRADECER DEVIDAMENTE, MEU VOCABULÁRIO É POBRE, MAS OBRIGADA, POIS ENQUANTO EU DORMIA E A CHUVA CAIA, TU PROVIDENCIAVA O MEU MILAGRE
( Judite Araujo).
Assinar:
Postar comentários (Atom)
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário