quinta-feira, 6 de novembro de 2014







A ROSA E O CIPÓ

Uma rosa colombiana muito bonita, de um vermelho vivo e fulgurante, bailava no galho, cheia de vida e cheia de si.... a alguns metros numa das colunas um pé de cipó enrolava-se até o teto, da casa muito bela, dando voltas sobre a coluna e já alcançando as telhas, mas sem uma única folha que embelezasse um pouco sua vidinha incomum.
Por vezes, ele mesmo perguntava-se, qual a razão de sua existência , mas calava-se.
A rosa olhava em volta dando conta de tudo a sua volta, achando-se a mais maravilhosa criação, lançando sempre um olhar de desprezo as demais plantas e flores do jardim.
Sempre queria mais mimos, mais adubo, mais água, mais tudo, um dia o jardineiro a transplantou para o pé da coluna em que estava o cipó, a rosa protestou com veemência, pois não achava aquele inútil cipó digno de sua companhia.
- não sei, não entendo, não concordo..... dizia ela, deveria estar num lugar de destaque, brilhando sozinha, no centro deste imenso jardim, não aqui na sombra deste cipó sem beleza, sem eira nem beira.....
mas o cipó não respondia, não resmungava, não descia.
a rosa quebra a harmonia e pergunta: -Porque nada falas cipó inútil? acaso não tens honra?
Com a voz firme, porém mansa, diz o cipó: - estou muito ocupado crescendo, para descer ao seu nível cara rosa.
ofendida com a resposta, a rosa procurou diminuí-lo ao máximo que podia para vê-lo humilhado, já que nutria por ele apenas desprezo.
-Que pensas ser , acaso brilhas nas festas? ou te vais aos banquetes? acaso decoras os grandes salões? ou alguma noiva já te escolheu como buquê? já repousaste sobre lençóis de seda? já foste algum dia dado a alguma mulher por um cavalheiro apaixonado?
-NÃO!! respondeu o cipó sem perder a calma. Mas no entanto apesar da tua grandeza, e da minha simplicidade, estamos plantados na mesma terra, e sob o mesmo céu, recebemos da mesma água, a luz do mesmo sol, da mesma brisa, e somos cuidados pelas mesmas mãos. não brilho nas festas como tu, apesar de muitas vezes estar no mesmo ramalhete que tu, embora não me notes, faço parte da beleza que compõe a decoração.
Não desejo aborrecer-te cara rosa, mas tenho a vida mais longa, apesar da ínfima beleza, um dia posso secar, e você resseca, perde a cor, o brilho e o viço. Eu não tenho beleza aparente, mas as mãos do artesão faz comigo verdadeiras obras de arte, em móveis rústicos que duram muitas estações, nos palácios és admirada, enfeitas por um dia talvez, eu vivo nos jardins na vida de um banco rústico e ouço as juras de amor dos namorados, um velho cidadão sentado em mim contempla uma noite estrelada, as crianças vão e vem, pulam sobre mim, me fazendo partícipe de suas aventuras e brincadeiras, e quando perco um pouco o viço, alguma mão abençoada me embeleza com verniz, e ganho nova roupagem.... e tu nobre rosa, que podes dizer de uma vida longa? se o vento levar uma pétala tua, volta a devolver? mesmo quando és guardada na página de um livro, conservas essa cor de que tanto te orgulhas?
Cara rosa, um dia todos morremos, tu com tua beleza, eu com minha vida sem brilho. Nesta vida tudo passa, não podemos nos orgulhar de ser melhores que ninguém, o sol brilha para todos, e cada um é útil naquilo a que foi chamado.
As vezes estamos tão embriagados em nossas alturas, que não valorizamos a não ser nosso próprio chão e nosso umbigo, esquecemos por opção que o Deus que projetou as grandes coisas, parou também para projetar as humildes e insignificantes coisas.
As estrelas são fulgurantes, o sol tem seu esplendor, o mar abraça todos os rios, as florestas e as montanhas são gigantes que abençoam a terra. a grama alimenta os animais, e a chuva cai sobre todos, e quem poderia pensar que o DEUS que fez tudo isso, em forma, cor , tempo e objetivo, desprezaria os berços mais afamados do mundo,e escolheria uma manjedoura para o nascimento do Rei dos reis da terra???
A rosa emudecida apenas ouvia e se dava conta que não é o que somos, mas como somos no interior, não é o que temos, mas o que podemos dar e no que podemos nos transformar ao ser tocados pelo grande criador.
Nesta vida há sempre alguma lição que ainda não aprendemos.
( Judite Araujo).

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