"O Lírio está sendo ferido!"
As informações sobre si mesma que a Sulamita passou a Salomão, não foram tão românticas, como é desejado hoje para namoros e casamentos. Embora o casamento deles tenha se tornado uma união magnífica, e do ponto de vista espiritual, Deus o tenha usado para figurar o amor de Cristo e sua igreja, A sulamita narra a Salomão, nos primeiros capítulos do livro de Cantares informações nada românticas sobre sua vida.
Todos os indícios e suas narrativas antes do casamento com ele, dizem de uma vida sacrificial, pobre, experimentada em dores, trabalhos pesados, renúncias, pressões e até abandono e alguns abusos.
O certo é que ela era tão sincera quanto verdadeira, sem máscaras, e isso encantou o rei de Israel.
Ao verificar a história de sua vida, muitas surpresas são detalhadas:
ela não era bem aceita entre sua família, seus irmãos a obrigaram trabalhar em serviços pesados com eles,
Existia alguns trabalhos considerados indignos na nação judaica, lenhadores, pastores e cuidadores de vinhas. Ao que ela relata ao rei ela ficou muito tempo exposta ao sol, enquanto cuidava de vinhas alheias, este último trabalho era dado a pessoas indignas que não ganhavam salários e que haviam sido deixados para trás por familiares ou senhores, pessoas consideradas estorvo familiar ou social, ou como pagamento de dívidas. Tudo indica que ela sofria o preconceito entre seus irmãos,e que eles a expulsaram de sua própria terra. mas que conservou uma fé e esperança ativa no futuro e no Deus que cria. Também nos primeiros momentos não foi bem aceita e muito bem amada entre as donzelas de Jerusalém, por ser uma jovem amante dos campos e das montanhas, andar a pé, descalça e ter um espírito aventureiro e até indomável, mas principalmente por sua cor morena. Fato claro que ela enuncia ao defender viver em contato perene ao sol (1.5,6). Só depois de ver a admiração do rei a ela, as virgens a aceitaram no contexto palaciano. Antes se entreolhavam e perguntavam: " quem é esta?"
Provavelmente Salomão a tenha encontrado sozinha, em algum passeio no campo e se encantado com seu sotaque, aparência humilde, e destemor em sua comunicação e simplicidade.
Também chamou a atenção de Salomão pelo fato de nada falar de vida palaciana, luxos, vaidades, mas tinha um elaborado conhecimento da natureza, botânica, rios, plantações, fases lunares, cultivo de uvas e animais, e uma inteligencia acima da média, bem como uma saudável e ampla imaginação.
Daí compreende-se a forma com que o rei usou desse mesmo artifício para seduzi-la e elogiá-la, falou do que ela conhecia (1.9).
Ela expunha de forma clara suas dores, sentimentos, sem no entanto ser presa do ódio, mágoas ou ressentimentos, uma prova disto é quando declara-se semelhante à Rosa de Sarom e ao Lírio dos Vales. Quem tivesse uma vida pautada no rancor, jamais guardaria a delicadeza de flores tão puras na alma.
A rosa de Sarom, nascida nos cumes da montanha sagrada de hermom, brotava logo após a fina camada de gelo ser derretida e regar com nutrientes do orvalho matutino o solo fértil. Dizia de uma vida difícil, sacrificial, mas que valia a pena os riscos para obtê-la.
O Lirio dos vales era ainda mais significativo, quando as fortes chuvas faziam o Jordão transbordar, as águas barrentas e caudalosas, traziam para a margem, tufos de capim, junco, restos de cascas e espinhos jogados no rio e nos campos pelos lenhadores e agricultores. Que se juntavam á lama do Jordão e secavam nas margens criando um adubo natural para lírios e espinheiros que cresciam juntos. Quando o vento soprava, empurrava os lírios contra os espinhos, rasgando-os, dilacerando-os, mas então fazia brotar o mais nobre perfume que se espalhava no vale.
Depois de conhecer sua história Salomão a narra como um lírio entre espinhos.
É conhecida a fama do perfume desse lírio ente os camponeses, nas noites de vento e primavera, o perfume ao anoitecer enche o ar, e os camponeses ao senti-lo exclamam: "O lírio está sendo ferido!" Então sabiam com o sinal do perfume se espalhando, que era hora se semear, plantar, que entre os animais e a natureza vegetal era tempo de fertilidade. (8.14)
A nossa história, nem sempre é radiante ou bela, há até mais dores e espinhos que cores e amores, mas nosso Deus nos amou assim mesmo, e nos quis. Sua presença torna tudo novo e sua força nos dá um alento que nenhuma nuvem pode esmaecer.
Viver cercado de espinhos tem uma glória, soprar o perfume da graça, nos campos da paz, e levar esperança aos corações mais humildes e frescor ás mãos que até podem ter ajudado a semear muito da desventura que nos cerca.
Se o lírio não for ferido, a terra não terá perfume, e sem o odor da graça, ela não terá a bênção da semeadura, nem a colheita do amor divino.
Glorie-se por ser uma igreja que sofre, as semeaduras e colheitas mais significativas do evangelho se deram no toque nada gentil dos espinhos nas provas, mas jamais houve um perfume tão mais nobre sobre a terra e jamais haverá.
Confunde o inimigo de nossas almas saber que seus confrontos e lixos jogados sobre nós, acabe virando adubo para nossa fé e crescimento, que a profusão de espinhos pode até ferir o lírio, mas não modifica nem quita o seu perfume.
Judite Araujo.

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