quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A alma e os joelhos

A ALMA E OS JOELHOS
Depois de anos aguardando o momento certo,
e antes que o alquebrado joelho não pudesse mais dobrar-se no chão do quarto,
a alma agradecida veio convidá-lo para um passeio em seus domínios.
Reconhecia que todos aqueles anos em que crescera, ganhara vida e se fortalecera,
dependera daquele par de joelhos que se dobrara dia após dia, sem dar tréguas, as vezes escutava um canto, as vezes uma oração profunda, ouviu tantos gemidos, orações silenciosas, lágrimas quentes caindo uma após outra, sentira as angustias e apreensões que o velho par de joelhos sentira, as vezes que pudera desistir, mas persistira em seguir buscando.
Conseguia compreender agora a agonia da espera daqueles joelhos, pela germinação das sementes que enviava para seu interior e nem sempre tinham as respostas.
Enfim, sentindo-se pronta, aparece diante daquele velho e enrugado par de joelhos e o convida para entrar.
A cada passo dado com dificuldade, os joelhos espantavam-se com tanta beleza, frescor, generosidade, alegria, contentamento, entusiasmo e vida que brotava em profusão das recâmaras da alma.
ÓH alma, que bela és, como te vês radiante, e infinitamente maravilhosa!
tão diferentes destes fracos joelhos calejados.
Tudo a ti joelho velho devo eu, esta vida, este vigor, esta beleza, pois por tua persistência, desejo de ajudar-me, renasci e me manti de pé, enquanto tu te dobravas dia após dia, hora a após hora.
guerreaste valentemente em minha defesa, nos momentos mais sombrios, quando estava a ponto de perder-me nas trevas do engano, jamais deixaste de crer que o milagre é possível para a alma perdida e extraviada.
Devo a ti minha cor, minha força, minha história, pois Deus para honrar-te, e aceitar teus sacrifícios, usava tuas orações e plegárias para revigorar-me sem desistir, até que tudo em mim, manifesta-se o seu poderio e glória.
Um dia na eternidade, diante do trono de Deus, demonstrarei ao teu lado a mais preciosa lição que me ensinaste: me dobrarei também agradecida por ter sido salva, e conservada dos horrores eternos, salva e redimida pelo sangue puro, e mantida em pé por dois joelhos que nunca cansaram de dobrar-se para que eu fosse mantida viva e sem máculas.
O joelho emudecido, foi dobrando, dobrando, para encontrar o solo frio, mas tão doce, que tão intimamente conhecia, para uma balbuciada oração de gratidão, não por que havia dobrado-se toda a vida em prol de almas, mas em reconhecimento ao favor divino em atender orações e suplicas de joelhos humanos.
Isso é nossa história, nosso legado, quando os joelhos se dobram as almas renascem.
Judite Araujo.

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