quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O pequeno Cacto

O pequeno cacto
- Acho que cacto não vale nada, acho que cacto não tem história, queixou-se
um pequeno cacto ladeado de seixos brancos, numa bancada de mármore num lado do jardim.
- Nenhuma borboleta pousa aqui, não há beija-flores nos beijando, os pássaros passam longe, muito menos as abelhas, que néctar tirariam de tantos espinhos?
- Calma! falou calmo o cacto mais velho, a vida é cheia de beleza e surpresa!
- Não vejo por onde em nosso caso, disse revoltado o pequeno cacto, beleza, que beleza pode haver em um monte sem fim de espinhos e gomos?
Vejo este jardim todos os dias e nossa dona, nunca colhe um de nós para seus buques, acho mesmo que só servimos para contos de sogras... affis!!! suspirou.
- O tempo nos trará todas as respostas, disse o velho cacto, consciente das experiências da longa vida.
- É que o senhor já é velho, nada tem mais que esperar, eu sou jovem, vivo, queria ter beleza, grandeza, valor, para encantar todas as flores do jardim, mas que esperar desta vida tão sem graça? Se até mesmo a água nos é dada por medida?
nas demais plantas põem adubo, aqui só colocam pedras.
- E que flor se interessaria por um cacto arredondado, cheio de espinhos pontiagudos, que poderia eu oferecer?
- Eu preferia ter sido um cacto comistível da Bolívia, uma tuna, doce e macia, ou uma flor de maio, sem tantos espinhos, ou até viver no Brasil sendo um cacto bromélia.
- Não se deixe levar apenas pela aparência do momento falou baixo e grave o velho cacto ao seu lado, como sempre tenho te dito, a vida surpreende, basta esperar o tempo de cada novidade.
- Que novidade pode ter a oferecer um cacto?
- Tenho vivido tempo suficiente para te falar por experiência filho, que a vida de um cacto não se resume só nos espinhos, é que na vida há algumas leis, que para se revelarem obedecem a um ciclo, um tempo, uma época determinada. E com essa espera, nasce a paciência a maior de todas as virtudes.
Um dia fui jovem e inexperiente, queria todas as respostas num momento, me revoltava, vociferava, achava que todos me deviam explicações, não queria que a vida seguisse seu curso natural, dando as respostas devagar e a contento.
Passei a me sentir inferior a todos, só porque nada tinha para mostrar, nada produzia, tentei saltar do vasinho que estava plantado várias vezes, fiz as mesmas indagações que vc várias vezes, até que em uma manhã como esta, algo ocorreu e mudou minha vida para sempre, fiquei tão surpreso, tão chocado, tão pasmo, tão fora de mim, e tão feliz que se cacto pudesse voar eu teria voado até o anoitecer.
- E que coisa tão espetacular foi essa? quis saber o pequenino cacto.
- Logo logo, saberás, tenha calma, acontece com todos nós, um dia dormimos como cactos verde, roliços e sem graça, e na manhã seguinte: ran tan tan tan....
o milagre acontece. E nem adianta teimar, não direi, vc tem que esperar para viver sua própria experiência com esse fenômeno, com esse brilhante acontecimento.
A noite foi longa, o pequeno cacto não dormiu, pensando no que poderia suceder a um pé de cacto como ele, mas conteve-se, seus iguais dormiam todos.
Uma semana depois o velho cacto começou cantarolar bem cedo, uma musiquinha suave e alegre: ai ai ai ai, está chegando a hora..... e aqui e ali se ouvia outro cacto de espécie diferente cantarolar essa musica.
- Ninguém lhe dizia nada, embora todos conhecessem seus discursos, curiosidade e reclamações o tempo todo. Apesar disso havia uma alegria pairando, um clima de otimismo no ar.
Mais uma semana e logo ao amanhecer, o pequeno cacto olhou boquiaberto:
- Acordem, amigos, vejam vcs todos estão muito estranhos, estão doentes, estão nascendo verrugões em vcs e de cores diferentes. procurem logo o jardineiro com urgência ou um botânico, parece um caso muito grave;
Todos riram com vontade e voltaram a cantar, suspirar, o pequeno cacto nada entendeu, mas calou-se, pensando: ainda bem que eu não estou infectado.
Na manhã seguinte um dos cactos acordou sorrindo e bradou:
- Nada como um dia depois do outro com uma noite no meio.
Quando todos olharam para o pequeno cacto sorriam sem parar, sem poder conter-se...
-Que passa? o pobrezinho perguntou vendo todos os olhares em sua direção.
-Ah, já sei, falou com pesar na voz, devo ter sido infectado por algum de vcs, com essa estranha doença dos verrugões.
-Acho que não, responderam em coro, rindo sem poderem conter-se.
- Digam logo por favor, estou infectado?
-Sim, o coro foi unanime, estás, e pelo jeito, serás o rei dos vergões, pois te está nascendo uma coroa amarela bem no topo da cabeça!!!
- Meu Deus estou perdido!! Queixou-se.
O velho cacto esperou a luz do dia aparecer, para que a surpresa tão aguardada se revelasse. Mas antes que pudesse, dizer algo,e o sol raiasse em seu apogeu, as mãos delicadas da sua senhora, capturaram a bandeja de cactos maravilhada, levando para o interior da mansão.
O pequeno cacto despertou dos devaneios exatamente quando ouvia uma voz alegre dizer:
Lindos, perfeitos, maravilhosos!!
E antes que pudesse perguntar algo a qualquer um, viu num espelho enorme sua própria imagem refletida, e não podia acreditar no que via: No alto de sua cabeça luzia uma linda coroa de flores amarelas, as mais lindas e perfumadas que já vira.
Olhando em volta viu seus companheiros de vasos, que luziam igualmente cada um suas flores, em cores e formatos diferentes.
Pela primeira vez, não tinha palavras para expressar-se, e apenas olhava maravilhado para si, e de um para o outro. Era o mais lindo jardim que jamais imaginara existir, ali no meio dos espinhos, brotando esfuziantes, as mais lindas e exuberantes flores, e o mais precioso é que os espinhos não a feriam.
Olhou um pouco envergonhado para o velho cacto, como a pedir-lhe desculpas.
- Apenas aproveite, sussurrou o velho amigo! Esse é o maravilhoso da vida, ela nos surpreende, não temos que tentar entender tudo, só temos que agradecer a Deus que fez tudo formoso em seu tempo , lugar e forma e deixar que a vida complete seu espetáculo!
Tudo na vida tem um porquê, tudo existe para obedecer a um propósito. Mesmo quando pensamos que algumas coisas são inadequadas, desproporcionais, de pouca valia, ou não se encaixam em nossas metas, podemos esperar boas novidades, bênçãos desabrochando milagres todo dia.
Pois tudo o que existe, foi projetado com esmero e cuidado pelas mãos milagrosas de Deus, e ele pode plantar belezas inigualáveis onde só existe caos. Ele pode fazer surgir as mais lindas flores, do meio dos mais pontiagudos espinhos.
Se vc ainda não aceitou suas debilidades ou não aprendeu conviver com os defeitos alheios, é hora de aprender com Cristo, que pelo amor com que nos amou, fez nascer as flores da graça, no meio dos nossos espinhos, oferecendo-nos uma vida tão plena e radiante e cheia de novidades que jamais imaginamos ser possível vivê-la em sua totalidade. Não negue seus espinhos, aprenda a convivência pacífica deles com suas flores.
Judite Araujo.

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